Na rua onde vivemos, entre fachadas que se repetem e
janelas que se abrem para o quotidiano, há sempre figuras que se destacam não
pelo brilho da inteligência, mas pelo eco da sua própria vaidade. São os
parvóides, esses seres que se julgam sábios, mas que apenas repetem fórmulas
ocas, frases feitas, certezas sem raiz. O parvóide não é o parvo ingénuo, nem o
ignorante assumido. É uma criatura mais subtil e perigosa, porque acredita na
sua própria encenação.
Quantos parvóides existem na nossa rua? Talvez mais do
que imaginamos. Estão nos cafés, debruçados sobre mesas onde se discute política
como se fosse futebol. Estão nas varandas, opinando sobre vizinhos com a
convicção de quem conhece o mundo inteiro. Estão nas redes sociais,
transformando o telemóvel em púlpito improvisado. O parvóide é omnipresente,
porque a sua essência não depende de lugar, mas de atitude.
O parvóide fala alto, mas pensa baixo. Usa palavras
grandes, mas ideias pequenas. É mestre em jargões, em citações fora de
contexto, em opiniões que parecem profundas mas não resistem ao primeiro sopro
de análise. O seu discurso é como um castelo de cartas que impressiona pela
forma, mas desmorona ao menor toque.
Na nossa rua, o parvóide é o vizinho que se julga
especialista em tudo. É o homem que comenta economia sem nunca ter lido um
relatório. É a mulher que fala de ciência sem nunca ter aberto um livro. É o
jovem que repete frases de influencers como se fossem axiomas. O parvóide não é
definido pela idade, pelo género ou pela profissão. É definido pela postura de
uma certeza sem base, a convicção sem estudo e a arrogância sem humildade.
Mas não nos enganemos pois o parvóide não é apenas
cómico. É também trágico. Porque arrasta outros consigo. A sua voz, amplificada
pelo ruído das ruas e das redes, torna-se referência. E quando o parvóide é
seguido, imitado e promovido, a sociedade inteira empobrece. A cultura do
parvóide é a cultura da superfície, onde o brilho substitui a profundidade e o
ruído suplanta o silêncio.
Quantos parvóides existem na nossa rua? Talvez tantos
quantos os que existem dentro de nós. Porque cada um carrega um parvóide
interior, uma voz que quer parecer mais do que sabe, um impulso de mostrar em
vez de compreender. Reconhecer esse parvóide íntimo é o primeiro passo para o
calar. E calá-lo é abrir espaço para o verdadeiro pensamento, para a escuta e
para a dúvida.
O parvóide é universal, mas adapta-se ao contexto. Na
União Europeia, veste-se de tecnocrata, escondendo a ausência de visão atrás de
relatórios e gráficos. Em Portugal, surge nas tertúlias televisivas, nos cafés
onde se fala de tudo com a certeza de quem leu pouco. Em Macau, aparece nas
intersecções entre tradição e modernidade, abafando o saber ancestral com a
actualidade ruidosa e superficial.
Na
nossa rua, o parvóide é o reflexo do tempo em que vivemos. Um tempo que
valoriza o imediato, o vistoso e o ruidoso. Um tempo em que a profundidade é
vista como lentidão e a dúvida como fraqueza. O parvóide prospera porque o mundo lhe dá palco. Mas há
sempre quem resista. Há sempre quem escolha o caminho mais difícil que é o da
profundidade, da lentidão e da verdade.
Resistir ao parvóide é cultivar o pensamento. É aceitar a
complexidade, o paradoxo e o silêncio. É preferir a pergunta à resposta pronta.
É desconfiar do brilho fácil. Porque o parvóide não sobrevive à profundidade.
Afoga-se nela.
Quantos parvóides existem na nossa rua? Talvez todos.
Talvez nenhum. Porque o parvóide é uma possibilidade, não uma certeza. É uma
sombra que se projecta quando a luz da humildade se apaga. É um eco que ressoa
quando o silêncio da escuta se perde.
E no entanto, há esperança. Porque onde há leitura, há
resistência. Onde há escuta, há profundidade. Onde há humildade, há sabedoria.
O parvóide pode ser derrotado não por confronto, mas por contraste. Porque onde
há pensamento verdadeiro, o parvóide não tem lugar.
Assim, ao caminharmos pela nossa rua, entre fachadas e
janelas, entre cafés e varandas, podemos escolher ver além do ruído. Podemos
escolher ouvir além da certeza. Podemos escolher pensar além da aparência. E
nessa escolha, o parvóide desfaz-se. Não por combate, mas por ausência de
palco.
O parvóide é uma luz que não ilumina, um farol pintado
num papel, um ruído que se confunde com música. Mas há sempre quem veja, quem
escute e quem escolha o caminho mais difícil. E é nesse
caminho que reside a esperança.
Bibliografia
· Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa. Parvóide. Porto Editora, 2025.
· Han, Byung-Chul. A Sociedade da Transparência. Lisboa: Relógio D’Água, 2014.
· Postman, Neil. Amusing Ourselves to Death. Penguin Books, 1985.
· Sennett, Richard. A Corrosão do Carácter. Lisboa: Edições 70, 2006.
· Gil, José. Portugal, Hoje: O Medo de Existir. Lisboa: Relógio D’Água, 2004.
· Eco, Umberto. A Vertigem da Lista. Lisboa: Difel, 2010.

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