Pensar o impossível
sempre foi uma actividade suspeita. Não porque o impossível seja
particularmente perigoso, mas porque tem a péssima mania de expor a
mediocridade confortável do possível. O possível é ordeiro, previsível e
domesticado; o impossível, pelo contrário, é insolente, inconveniente, e
insiste em lembrar-nos que a realidade não passa de uma construção provisória,
mantida por aqueles que têm medo de admitir que não sabem muito bem o que estão
a fazer. A história humana é, aliás, uma sucessão de impossibilidades tornadas
inevitáveis, desde a invenção da escrita até à criação de burocracias
suficientemente complexas para impedir qualquer transformação significativa.
Pensar o impossível é, portanto, um acto de higiene intelectual como uma
espécie de desinfecção contra o conformismo institucionalizado.
O problema é que o
impossível, quando pensado com seriedade, tem o hábito de revelar a fragilidade
das estruturas que fingem governar o mundo. Basta observar como as sociedades
contemporâneas se agarram a narrativas de estabilidade, como se a estabilidade
não fosse apenas uma pausa entre duas crises. A própria ideia de progresso, tão
celebrada nos discursos oficiais, funciona como um sedativo colectivo pois
promete que tudo vai melhorar, desde que ninguém faça perguntas incómodas.
Pensar o impossível é precisamente fazer essas perguntas, e isso perturba
profundamente os guardiões do status quo, sempre prontos a defender a ordem
existente com a convicção de quem nunca a analisou. É por isso que conceitos
como utopia ou transformação estrutural são tratados como excentricidades
académicas, quando na verdade são ferramentas essenciais para escapar ao
labirinto mental do realismo resignado.
O realismo, esse grande
inimigo do pensamento criativo, apresenta-se como uma virtude, quando na
verdade é uma forma sofisticada de desistência. O realista profissional, figura
omnipresente em governos, empresas e comentariado televisivo repete com ar
grave que “não há alternativas”, como se a ausência de imaginação fosse uma lei
natural. A sua missão é garantir que o mundo permaneça exactamente como está,
mesmo que esteja a desmoronar-se. O realista não pensa o impossível porque teme
que o impossível revele a sua irrelevância. Prefere, portanto, a segurança do
previsível, mesmo que o previsível seja um desastre anunciado. É por isso que
pensar o impossível é um acto subversivo porque desafia a autoridade dos que
confundem prudência com paralisia.
Mas o impossível não é
apenas uma provocação intelectual; é também um exercício de responsabilidade.
Num tempo em que as crises se acumulam com a regularidade de um boletim
meteorológico de natureza climática, económica, social, tecnológica insistir no
possível é uma forma de negligência. O possível demonstrou repetidamente a sua
incapacidade para resolver problemas que ajudou a criar. Continuar a confiar
nele é como pedir a um pirómano que escreva o manual de combate a incêndios.
Pensar o impossível, pelo contrário, abre espaço para imaginar soluções que não
cabem nos modelos existentes, precisamente porque os modelos existentes foram
desenhados para evitar qualquer mudança significativa. É um convite a
reconfigurar o horizonte, não a ajustá-lo milimetricamente.
A dificuldade está em
que o impossível exige coragem, não a coragem romântica dos heróis literários,
mas a coragem prosaica de admitir que não sabemos tudo. Esta admissão é
profundamente desconfortável para instituições que se legitimam através da
aparência de omnisciente competência. Governos, universidades, empresas e
organismos internacionais constroem a sua autoridade sobre a ficção de que
dominam a complexidade do mundo. Pensar o impossível ameaça essa ficção, porque
implica reconhecer que o conhecimento estabelecido é insuficiente. É por isso
que tantas estruturas de poder preferem investir em gestão de risco do que em
imaginação estratégica pois o risco pode ser calculado, a imaginação não.
No entanto, a história
demonstra que as grandes transformações nunca surgiram de cálculos prudentes,
mas de rupturas conceptuais. A abolição da escravatura, o sufrágio universal, a
internet, a exploração espacial tudo isto foi considerado impossível antes de
se tornar banal. O impossível é, portanto, o laboratório onde se testam as
ideias que o presente ainda não consegue compreender. Recusar-se a pensar o
impossível é condenar-se a repetir o passado com pequenas variações cosméticas.
É transformar a política em administração, a ciência em manutenção, a cultura
em reciclagem. É aceitar que o futuro seja apenas uma versão ligeiramente
actualizada do presente, com mais sensores e algoritmos e menos ambição.
Pensar o impossível
implica também desmontar a ilusão de que a realidade é neutra. A realidade é
sempre o resultado de escolhas feitas por alguém, em algum momento, com
interesses específicos. Quando nos dizem que algo é impossível, o que realmente
querem dizer é que é impossível dentro das regras actuais, regras que foram
desenhadas para beneficiar determinados actores. O impossível é, portanto, uma
ameaça à arquitectura invisível do poder. É por isso que tantas vezes é
ridicularizado, patologizado ou criminalizado. A imaginação é perigosa porque
revela que o mundo poderia ser diferente, e essa possibilidade é intolerável
para quem depende da sua imutabilidade.
O impossível, contudo,
não é um delírio. É uma forma de lucidez. É perceber que a realidade não é um
destino, mas um processo. É compreender que a estabilidade é uma ficção
conveniente e que a mudança é a única constante. É reconhecer que o futuro não
está escrito e que a sua escrita depende da nossa capacidade de imaginar
alternativas. Pensar o impossível é, portanto, um acto de emancipação
intelectual que nos liberta da tirania do presente e permite-nos conceber
futuros que não sejam meras extensões das limitações actuais.
Claro que pensar o
impossível tem custos. Exige tempo, energia e, sobretudo, disposição para
enfrentar a incompreensão alheia. O pensador do impossível é frequentemente
tratado como um excêntrico, um idealista, um perturbador da ordem pública. Mas
esta reacção não deve ser interpretada como um sinal de erro; pelo contrário, é
um indicador de que a imaginação está a tocar em zonas sensíveis do edifício
social. A resistência ao impossível é, muitas vezes, a prova da sua
necessidade. Quando uma sociedade reage com hostilidade a ideias que desafiam o
seu funcionamento, está a confessar, involuntariamente, a sua fragilidade.
O impossível é também
um antídoto contra o cinismo, essa doença crónica das sociedades saturadas de
informação e esgotadas de sentido. O cínico acredita que tudo é previsível, que
nada muda, que o poder é invencível e que a esperança é uma forma de
ingenuidade. Pensar o impossível desmonta esta narrativa, porque demonstra que
a história é feita de rupturas inesperadas. O impossível devolve-nos a capacidade
de espanto, essa faculdade essencial para reconhecer que o mundo pode ser
reinventado. E, num tempo em que a imaginação parece ter sido privatizada por
empresas tecnológicas e departamentos de marketing, recuperar o impossível é um
acto de resistência cultural.
Em última análise,
pensar o impossível é uma forma de responsabilidade ética. Não porque o
impossível seja moralmente superior, mas porque o possível demonstrou a sua
insuficiência. Persistir no possível é aceitar a continuidade de problemas que
exigem soluções radicais. É perpetuar desigualdades, crises ambientais,
injustiças estruturais e modelos económicos que tratam o planeta como um
recurso descartável. Pensar o impossível é, portanto, uma exigência ética que
implica reconhecer que a imaginação não é um luxo, mas uma necessidade para
enfrentar desafios que ultrapassam a lógica incremental do presente.
O impossível é, afinal,
o território onde se desenham os futuros que ainda não existem. É o espaço
conceptual onde se experimentam alternativas, onde se testam hipóteses, onde se
desafiam limites. É o laboratório da humanidade que não requer financiamento,
apenas coragem intelectual. E, num mundo que parece cada vez mais obcecado com
a gestão do previsível, pensar o impossível é talvez o último gesto
verdadeiramente revolucionário.
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