Monday, 15 June 2026

Why Not pensar o impossível?

 



Pensar o impossível sempre foi uma actividade suspeita. Não porque o impossível seja particularmente perigoso, mas porque tem a péssima mania de expor a mediocridade confortável do possível. O possível é ordeiro, previsível e domesticado; o impossível, pelo contrário, é insolente, inconveniente, e insiste em lembrar-nos que a realidade não passa de uma construção provisória, mantida por aqueles que têm medo de admitir que não sabem muito bem o que estão a fazer. A história humana é, aliás, uma sucessão de impossibilidades tornadas inevitáveis, desde a invenção da escrita até à criação de burocracias suficientemente complexas para impedir qualquer transformação significativa. Pensar o impossível é, portanto, um acto de higiene intelectual como uma espécie de desinfecção contra o conformismo institucionalizado.

O problema é que o impossível, quando pensado com seriedade, tem o hábito de revelar a fragilidade das estruturas que fingem governar o mundo. Basta observar como as sociedades contemporâneas se agarram a narrativas de estabilidade, como se a estabilidade não fosse apenas uma pausa entre duas crises. A própria ideia de progresso, tão celebrada nos discursos oficiais, funciona como um sedativo colectivo pois promete que tudo vai melhorar, desde que ninguém faça perguntas incómodas. Pensar o impossível é precisamente fazer essas perguntas, e isso perturba profundamente os guardiões do status quo, sempre prontos a defender a ordem existente com a convicção de quem nunca a analisou. É por isso que conceitos como utopia ou transformação estrutural são tratados como excentricidades académicas, quando na verdade são ferramentas essenciais para escapar ao labirinto mental do realismo resignado.

O realismo, esse grande inimigo do pensamento criativo, apresenta-se como uma virtude, quando na verdade é uma forma sofisticada de desistência. O realista profissional, figura omnipresente em governos, empresas e comentariado televisivo repete com ar grave que “não há alternativas”, como se a ausência de imaginação fosse uma lei natural. A sua missão é garantir que o mundo permaneça exactamente como está, mesmo que esteja a desmoronar-se. O realista não pensa o impossível porque teme que o impossível revele a sua irrelevância. Prefere, portanto, a segurança do previsível, mesmo que o previsível seja um desastre anunciado. É por isso que pensar o impossível é um acto subversivo porque desafia a autoridade dos que confundem prudência com paralisia.

Mas o impossível não é apenas uma provocação intelectual; é também um exercício de responsabilidade. Num tempo em que as crises se acumulam com a regularidade de um boletim meteorológico de natureza climática, económica, social, tecnológica insistir no possível é uma forma de negligência. O possível demonstrou repetidamente a sua incapacidade para resolver problemas que ajudou a criar. Continuar a confiar nele é como pedir a um pirómano que escreva o manual de combate a incêndios. Pensar o impossível, pelo contrário, abre espaço para imaginar soluções que não cabem nos modelos existentes, precisamente porque os modelos existentes foram desenhados para evitar qualquer mudança significativa. É um convite a reconfigurar o horizonte, não a ajustá-lo milimetricamente.

A dificuldade está em que o impossível exige coragem, não a coragem romântica dos heróis literários, mas a coragem prosaica de admitir que não sabemos tudo. Esta admissão é profundamente desconfortável para instituições que se legitimam através da aparência de omnisciente competência. Governos, universidades, empresas e organismos internacionais constroem a sua autoridade sobre a ficção de que dominam a complexidade do mundo. Pensar o impossível ameaça essa ficção, porque implica reconhecer que o conhecimento estabelecido é insuficiente. É por isso que tantas estruturas de poder preferem investir em gestão de risco do que em imaginação estratégica pois o risco pode ser calculado, a imaginação não.

No entanto, a história demonstra que as grandes transformações nunca surgiram de cálculos prudentes, mas de rupturas conceptuais. A abolição da escravatura, o sufrágio universal, a internet, a exploração espacial tudo isto foi considerado impossível antes de se tornar banal. O impossível é, portanto, o laboratório onde se testam as ideias que o presente ainda não consegue compreender. Recusar-se a pensar o impossível é condenar-se a repetir o passado com pequenas variações cosméticas. É transformar a política em administração, a ciência em manutenção, a cultura em reciclagem. É aceitar que o futuro seja apenas uma versão ligeiramente actualizada do presente, com mais sensores e algoritmos e menos ambição.

Pensar o impossível implica também desmontar a ilusão de que a realidade é neutra. A realidade é sempre o resultado de escolhas feitas por alguém, em algum momento, com interesses específicos. Quando nos dizem que algo é impossível, o que realmente querem dizer é que é impossível dentro das regras actuais, regras que foram desenhadas para beneficiar determinados actores. O impossível é, portanto, uma ameaça à arquitectura invisível do poder. É por isso que tantas vezes é ridicularizado, patologizado ou criminalizado. A imaginação é perigosa porque revela que o mundo poderia ser diferente, e essa possibilidade é intolerável para quem depende da sua imutabilidade.

O impossível, contudo, não é um delírio. É uma forma de lucidez. É perceber que a realidade não é um destino, mas um processo. É compreender que a estabilidade é uma ficção conveniente e que a mudança é a única constante. É reconhecer que o futuro não está escrito e que a sua escrita depende da nossa capacidade de imaginar alternativas. Pensar o impossível é, portanto, um acto de emancipação intelectual que nos liberta da tirania do presente e permite-nos conceber futuros que não sejam meras extensões das limitações actuais.

Claro que pensar o impossível tem custos. Exige tempo, energia e, sobretudo, disposição para enfrentar a incompreensão alheia. O pensador do impossível é frequentemente tratado como um excêntrico, um idealista, um perturbador da ordem pública. Mas esta reacção não deve ser interpretada como um sinal de erro; pelo contrário, é um indicador de que a imaginação está a tocar em zonas sensíveis do edifício social. A resistência ao impossível é, muitas vezes, a prova da sua necessidade. Quando uma sociedade reage com hostilidade a ideias que desafiam o seu funcionamento, está a confessar, involuntariamente, a sua fragilidade.

O impossível é também um antídoto contra o cinismo, essa doença crónica das sociedades saturadas de informação e esgotadas de sentido. O cínico acredita que tudo é previsível, que nada muda, que o poder é invencível e que a esperança é uma forma de ingenuidade. Pensar o impossível desmonta esta narrativa, porque demonstra que a história é feita de rupturas inesperadas. O impossível devolve-nos a capacidade de espanto, essa faculdade essencial para reconhecer que o mundo pode ser reinventado. E, num tempo em que a imaginação parece ter sido privatizada por empresas tecnológicas e departamentos de marketing, recuperar o impossível é um acto de resistência cultural.

Em última análise, pensar o impossível é uma forma de responsabilidade ética. Não porque o impossível seja moralmente superior, mas porque o possível demonstrou a sua insuficiência. Persistir no possível é aceitar a continuidade de problemas que exigem soluções radicais. É perpetuar desigualdades, crises ambientais, injustiças estruturais e modelos económicos que tratam o planeta como um recurso descartável. Pensar o impossível é, portanto, uma exigência ética que implica reconhecer que a imaginação não é um luxo, mas uma necessidade para enfrentar desafios que ultrapassam a lógica incremental do presente.

O impossível é, afinal, o território onde se desenham os futuros que ainda não existem. É o espaço conceptual onde se experimentam alternativas, onde se testam hipóteses, onde se desafiam limites. É o laboratório da humanidade que não requer financiamento, apenas coragem intelectual. E, num mundo que parece cada vez mais obcecado com a gestão do previsível, pensar o impossível é talvez o último gesto verdadeiramente revolucionário.

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