Há um rumor que vive dentro de nós que não é voz,
não é grito e não é silêncio. É um tremor subtil, uma vibração que se instala
entre o pensamento e o gesto. Chamam-lhe ansiedade, como quem nomeia um animal
que não se deixa domesticar. A ansiedade não chega com hora marcada. Não pede
licença. É como o vento que se infiltra pelas frestas da alma, ora brisa, ora
tempestade. Mas será sempre inimiga? Ou poderá ser aliada, ainda que incómoda?
Há quem diga que a ansiedade é o preço da
consciência. Que só quem pensa demasiado, sente demasiado. Que só quem sonha
alto, teme a queda. E talvez haja verdade nisso. Porque a ansiedade, quando não
nos devora, pode ser bússola. Pode ser o sinal de que algo importa, de que algo
está por fazer, por dizer e por transformar. Recordo os dias em que a ansiedade
me empurrou para fora da cama, antes do sol nascer. Não por medo, mas por
urgência. Como se o tempo fosse curto e a vida exigisse pressa. Nesses dias,
foi chama. Foi motor. Foi o que me impediu de adormecer na rotina.
Mas há também os dias em que se torna sombra. Em
que o coração acelera sem razão, em que o corpo treme como se fugisse de um
perigo invisível. Nesses dias, a ansiedade é cárcere. É ruído. É o eco de um
alarme que nunca se desliga. E então perguntamos, onde está o limite entre o
útil e o patológico? Entre o alerta e o colapso? Talvez não haja fronteira
nítida. Talvez a ansiedade seja como a água, essencial em pequenas doses,
destrutiva em excesso.
Os antigos falavam de “melancolia produtiva”. Os
modernos falam de “transtorno de ansiedade generalizada”. Mudam os nomes, mas
permanece o mistério de como pode algo tão íntimo ser tão universal? A
ansiedade é, por vezes, o que nos torna humanos. É o que nos impede de sermos
indiferentes. É o que nos obriga a agir, a corrigir e a prevenir. Mas também é
o que nos paralisa, nos consome e nos afasta de nós mesmos.
Talvez o segredo esteja em escutá-la. Em aprender
a distinguir o seu tom de quando é aviso e quando é sabotagem. Quando nos
protege e quando nos aprisiona. Porque, no fundo, a ansiedade é uma linguagem.
E como toda a linguagem, precisa de tradução. Precisa de tempo. Precisa de
cuidado. E se aprendermos a lê-la, talvez possamos transformá-la. Não em
inimiga, mas em conselheira. Não em doença, mas em parte do ofício de viver.

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