Há um tipo de silêncio que não repousa. Um silêncio que pulsa, que vibra
e que se disfarça de urgência. É o silêncio do corpo em alerta, da mente em
sobressalto e da alma em constante vigília. Chamam-lhe stress, mas há quem o
trate como companheiro, como combustível e como vício. E talvez seja isso que se
torna; uma dependência subtil, uma necessidade disfarçada de produtividade e
uma inquietação que se veste de propósito.
O stress não chega sempre como inimigo. Às vezes, entra pela porta da
frente, com o nome de ambição, com o rosto da responsabilidade e com o perfume
da superação. E quem o acolhe, fá-lo com entusiasmo, com orgulho e com a
convicção de que estar ocupado é estar vivo. Mas há uma linha ténue entre o
empenho e o esgotamento, entre o foco e a obsessão e entre o ritmo e o
atropelo. E é nessa linha que o vício se instala.
O corpo, esse sábio cúmplice, aprende a responder. Liberta adrenalina,
acelera o coração e dilata as pupilas. O cérebro, por sua vez, oferece dopamina;
a mesma que se acende com o prazer, com o jogo e com o risco. E assim, o stress
deixa de ser apenas resposta a uma ameaça. Torna-se estímulo, recompensa e
hábito. A pessoa sente-se viva quando corre contra o tempo, quando enfrenta
prazos e quando resolve crises. E quando tudo acalma, estranha o sossego, teme
o vazio e procura nova urgência.
Há quem confunda este estado com paixão. Com entrega. Com vocação. Mas o
stress viciante não é amor ao trabalho; é medo do silêncio. É receio de parar e
descobrir que não se sabe estar. É fuga disfarçada de empenho. É o corpo que não
sabe descansar, a mente que não sabe desligar, o espírito que não sabe habitar
o presente.
A cultura contemporânea alimenta este ciclo. Exalta a produtividade,
glorifica a ocupação e celebra o multitasking. Ser ocupado é ser importante.
Ser exausto é sinal de esforço. E quem ousa parar, quem escolhe o descanso, é
visto como fraco, como preguiçoso e como descomprometido. O stress torna-se
medalha, distintivo e identidade. E quanto mais se vive nele, mais difícil é
viver fora dele.
Mas há um preço. O corpo começa a falhar. A fadiga instala-se. O sono
torna-se leve, fragmentado. A memória escapa. A pele denuncia. O coração protesta.
E mesmo assim, há quem insista. Porque parar é perder o ritmo. Porque descansar
é enfrentar o que se evitou. Porque o stress, embora doloroso, é familiar. E o
familiar, mesmo tóxico, oferece conforto.
A mente, habituada à excitação, rejeita o repouso. O sistema nervoso,
treinado para a urgência, estranha a calma. E assim, o stress deixa de ser
resposta e passa a ser necessidade. A pessoa procura situações que o provoquem,
escolhe caminhos que o garantam, envolve-se em dinâmicas que o sustentem. E
quando tudo parece resolvido, inventa novos problemas, novos desafios e novas
corridas.
Este vício não se reconhece facilmente. Não há substância, não há objecto
e não há ritual. Há apenas um padrão; a incapacidade de parar. A dificuldade em
estar. A compulsão por fazer. E quem vive assim, muitas vezes, não se dá conta.
Acredita que está a ser útil, produtivo e eficaz. Mas por dentro, há um cansaço
que não se nomeia, uma inquietação que não se acalma e uma ausência que não se
enfrenta.
A cura começa na escuta. Na coragem de parar. No gesto de desacelerar.
No reconhecimento de que o valor não está na velocidade, mas na presença. Que o
mérito não está na exaustão, mas na consciência. Que o sucesso não se mede em
tarefas cumpridas, mas em paz interior. Desaprender o vício do stress é
reaprender o tempo. É aceitar o intervalo, o vazio, o silêncio. É permitir que
o corpo respire, que a mente repouse e que o espírito se reencontre. É
descobrir que há vida para além da urgência, que há sentido para além da
ocupação e que há beleza na pausa.
E talvez seja esse o maior desafio o de reconhecer que o stress, embora
útil em momentos pontuais, não pode ser casa, não pode ser identidade e não
pode ser vício. Que viver não é correr, mas caminhar. Que existir não é
produzir, mas sentir. Que ser não é fazer, mas estar.

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