Sunday, 5 July 2026

A força discreta de recomeçar


MUSICA PARA RELAXAR

Há dias em que o mundo parece começar antes de nós. Acordamos com a sensação de que tudo  está a acontecer lá fora, num ritmo que não acompanhamos, como se estivéssemos atrasados para a nossa própria vida. É nesses momentos que o recomeço se torna não apenas uma possibilidade, mas uma necessidade silenciosa. Recomeçar não é um acto grandioso; é um gesto íntimo, quase invisível, que começa dentro da mente antes de se transformar em movimento.

O recomeço não exige coragem heroica. Exige apenas honestidade. A honestidade de reconhecer que algo não está bem, que o corpo está cansado, que a mente está saturada, que o coração precisa de espaço. E essa honestidade, por mais simples que pareça, é uma das formas mais profundas de força humana. Porque admitir que precisamos de um novo começo é, por si só, um começo.

Muitas pessoas confundem recomeçar com desistir. Mas são coisas diferentes. Desistir é abandonar o caminho; recomeçar é ajustar a rota. É olhar para o que está à nossa frente e dizer: “Assim não está a funcionar, mas ainda acredito que posso chegar lá.” É uma forma de persistência mais madura, mais consciente, mais alinhada com aquilo que realmente somos. E essa maturidade não nasce da perfeição; nasce da experiência, das quedas, das pausas, das dúvidas.

O stress, a ansiedade e a sensação de desorientação surgem muitas vezes quando tentamos manter um ritmo que não é nosso. Vivemos numa sociedade que glorifica a velocidade, a produtividade, o desempenho constante. Mas a mente humana não foi feita para funcionar como uma máquina. Ela precisa de pausas, de silêncio, de reorganização. Precisa de momentos em que o mundo abranda para que possamos ouvir o que está a acontecer dentro de nós.

Recomeçar é, muitas vezes, um acto de escuta. Escutar o corpo que pede descanso. Escutar a mente que pede clareza. Escutar o coração que pede calma. E quando escutamos, percebemos que não estamos tão perdidos quanto pensávamos. Estamos apenas desalinhados. E o alinhamento volta quando paramos de correr atrás de expectativas externas e começamos a caminhar ao ritmo da nossa própria respiração.

Há uma beleza particular nos recomeços pequenos. Não precisam de grandes mudanças. Às vezes, recomeçar é apenas arrumar a mesa, abrir a janela, respirar fundo, beber água, dar um passeio curto, escrever duas linhas num papel. São gestos mínimos que têm um impacto enorme porque criam espaço. E quando há espaço, a mente deixa de se sentir encurralada.

Também é importante lembrar que recomeçar não significa apagar o que aconteceu. Significa integrar. Cada experiência, mesmo as mais difíceis, traz consigo uma lição, uma nuance, uma força que não tínhamos antes. O recomeço é a soma de tudo isso. É olhar para trás sem se prender, e olhar para a frente sem se assustar. É aceitar que a vida é feita de ciclos, e que cada ciclo tem o seu tempo.

A ansiedade tende a dizer-nos que estamos atrasados. Que deveríamos ter feito mais, sido mais, avançado mais. Mas a verdade é que ninguém está atrasado para a sua própria vida. Cada pessoa tem o seu ritmo, o seu processo, o seu caminho. E quando respeitamos esse ritmo, a ansiedade perde força. Porque deixamos de nos comparar com o que está fora e começamos a cuidar do que está dentro.

Hoje, o convite é simples: permita-se recomeçar. Sem pressa, sem culpa, sem a necessidade de provar nada a ninguém. Recomeçar é um acto íntimo, pessoal, profundamente humano. É a forma como a mente diz: “Ainda estou aqui. Ainda posso tentar.” E essa frase, dita em silêncio, tem um poder transformador.

Se hoje o dia começou antes de si, não tem problema. Comece agora. Comece devagar. Comece com um gesto pequeno. O recomeço não precisa de ser perfeito; precisa apenas de ser verdadeiro. E quando é verdadeiro, muda tudo.

Thursday, 2 July 2026

Why Not começar de novo?

  



Começar de novo é uma daquelas ideias que a humanidade adora proclamar com ar de epifania, como se tivesse descoberto a pólvora emocional. A frase surge sempre com a mesma solenidade: um suspiro profundo, um olhar para o horizonte, uma mão pousada no peito, e a convicção quase religiosa de que, desta vez, tudo será diferente. É o mantra universal dos arrependidos, dos cansados, dos que se convenceram de que a vida é uma espécie de tabuleiro onde se pode carregar no botão reset sempre que a partida corre mal. Infelizmente, a realidade tem o péssimo hábito de não alinhar com estes entusiasmos. Mas a pergunta persiste, teimosa, provocadora, quase insolente: Why Not começar de novo?

A resposta mais simples seria; porque não funciona. Mas isso seria demasiado curto, honesto e eficaz e, portanto, incompatível com o espírito humano, que prefere sempre a versão mais longa,  dramática e ornamentada das coisas. Começar de novo exige uma coreografia complexa de ilusões, racionalizações e pequenas mentiras piedosas que contamos a nós próprios para justificar o facto de estarmos a repetir, com ligeiras variações, exactamente o mesmo que fizemos antes. A humanidade é especialista em reciclar erros com uma criatividade digna de prémio.

O fascínio pelo recomeço tem raízes profundas. É a fantasia de que o passado pode ser arquivado como um ficheiro corrompido, que as consequências podem ser dissolvidas como açúcar na água, que a identidade é uma massa moldável que se adapta ao sabor do momento. É a crença ingénua de que basta mudar de cenário para mudar de enredo. Muda-se de cidade, de emprego, de parceiro, de dieta, de filosofia de vida, de corte de cabelo e proclama-se, com convicção teatral, que agora sim, tudo será diferente. A humanidade adora confundir movimento com transformação, como se a deslocação física tivesse poderes metafísicos.

Mas a verdade é que começar de novo raramente significa começar do zero. Significa, quase sempre, começar do mesmo ponto, mas com uma narrativa mais elaborada. É como pintar uma parede rachada com uma cor mais alegre que durante alguns dias parece que funciona, até que a fissura reaparece, imperturbável, lembrando-nos que a tinta não substitui o cimento. O recomeço é, muitas vezes, apenas cosmética existencial.

Ainda assim, a pergunta insiste: Why Not começar de novo? Talvez porque o recomeço é uma operação de alto risco. Implica admitir que o que veio antes falhou e a humanidade tem uma relação complicada com o fracasso. Preferimos reinterpretá-lo, redesenhá-lo, atribuir-lhe causas externas, transformá-lo em oportunidade, em aprendizagem, em qualquer coisa que não nos obrigue a reconhecer que, afinal, não somos tão excepcionais como imaginávamos. Começar de novo exige uma honestidade brutal que raramente estamos dispostos a praticar.

Além disso, o recomeço tem uma componente profundamente irónica pois para começar de novo, é preciso saber onde se está. E a maioria das pessoas não faz ideia. Vivem num estado permanente de distracção, navegando entre notificações, obrigações e pequenas urgências que consomem toda a energia mental disponível. O recomeço exige lucidez, e a lucidez é um recurso escasso. É mais fácil proclamar um novo começo do que compreender o que precisa realmente de ser recomeçado.

Mas há outra razão, mais subtil, para desconfiar do recomeço que pressupõe que existe um ponto ideal onde deveríamos ter estado e do qual nos desviámos. É a nostalgia do futuro que nunca aconteceu. A ideia de que existe uma versão melhor de nós mesmos, algures num universo paralelo, à espera que façamos finalmente as escolhas certas. É uma fantasia reconfortante, mas profundamente infantil. A vida não é um labirinto com uma saída correcta; é um campo aberto onde cada passo cria o caminho. Começar de novo é, muitas vezes, a tentativa desesperada de regressar a uma rota imaginária.

E, no entanto, apesar de todas estas contradições, o recomeço continua a seduzir. Talvez porque oferece uma narrativa simples para problemas complexos. É mais fácil dizer “vou começar de novo” do que enfrentar a intricada teia de decisões, hábitos, medos e condicionamentos que moldam a nossa existência. O recomeço é uma promessa de simplicidade num mundo que insiste em ser complicado.

Mas há uma alternativa mais interessante de não começar de novo, mas continuar de outra maneira. Em vez de apagar o passado, integrá-lo. Em vez de rejeitar o que fomos, compreender porque fomos assim. Em vez de procurar uma nova versão de nós mesmos, trabalhar para que a actual seja menos desastrosa. É menos glamoroso, cinematográfico e digno de um post inspiracional, mas é infinitamente mais realista.

A obsessão pelo recomeço também revela uma certa arrogância. A ideia de que podemos reinventar-nos completamente ignora o facto de que somos, em grande medida, produtos de contextos, relações, circunstâncias e limitações que não controlamos. Começar de novo pressupõe uma liberdade que raramente existe. É uma fantasia de omnipotência disfarçada de humildade. E há ainda o problema da memória. A humanidade gosta de acreditar que pode esquecer selectivamente, como se a mente tivesse um botão de delete. Mas a memória é teimosa, persistente, e tem uma capacidade extraordinária de se infiltrar nos novos começos, sabotando-os com a subtileza de um conspirador experiente. Começar de novo é tentar construir uma casa nova com tijolos velhos.

Então, Why Not começar de novo? Porque, na maioria das vezes, não começamos. Apenas mudamos o cenário e repetimos o guião. O recomeço é uma ilusão reconfortante, mas raramente é uma solução. A verdadeira transformação exige continuidade, não ruptura. Exige trabalho, não entusiasmo. Exige disciplina, não inspiração. Mas, claro, esta visão é demasiado pragmática para o gosto geral. A humanidade prefere sempre a versão romântica das coisas. Prefere acreditar que cada novo começo é uma oportunidade para renascer, como uma fénix emocional que emerge das cinzas dos seus próprios erros. É uma metáfora bonita, mas profundamente enganadora. A fénix renasce porque morre; nós, felizmente, não temos esse privilégio.

O recomeço também tem uma dimensão política, social e cultural. As sociedades adoram proclamar novos começos como novas eras, novos ciclos, novos governos, novos pactos, novas visões. É a forma mais elegante de evitar assumir responsabilidades pelo que correu mal. Quando não se sabe como resolver um problema, declara-se um novo começo. É uma estratégia tão antiga quanto eficaz. Mas talvez a pergunta Why Not começar de novo? mereça uma resposta menos cínica. Talvez o recomeço seja, apesar de tudo, uma forma de esperança. Uma esperança ingénua, imperfeita, mas necessária. A humanidade precisa de acreditar que pode mudar, mesmo quando não muda. Precisa de acreditar que pode melhorar, mesmo quando repete os mesmos erros. Precisa de acreditar que o futuro pode ser diferente, mesmo quando insiste em reproduzir o passado.

O recomeço é, no fundo, uma ficção útil. Uma ficção que nos permite continuar, mesmo quando tudo parece indicar que deveríamos parar. Uma ficção que nos dá coragem para tentar outra vez, mesmo sabendo que o resultado pode ser o mesmo. Uma ficção que nos permite sobreviver à consciência das nossas limitações. Por isso, talvez a resposta seja: Why Not começar de novo? Porque, apesar de tudo, precisamos dessa ilusão. Precisamos dessa narrativa. Precisamos dessa promessa. Não porque funcione, mas porque nos mantém em movimento. E, às vezes, mover-se é tudo o que podemos fazer.

No final, começar de novo é uma espécie de pacto silencioso entre o que somos e o que gostaríamos de ser. Um pacto imperfeito, frágil, mas profundamente humano. E talvez seja isso que importa. Não a eficácia do recomeço, mas a sua capacidade de nos lembrar que, apesar de tudo, ainda acreditamos em alguma coisa. Seja como for, a pergunta permanece, insolente, provocadora, quase poética: Why Not começar de novo? Talvez porque não podemos. Talvez porque não sabemos. Talvez porque não precisamos. Ou talvez porque, no fundo, estamos sempre a começar não de novo, mas de nós mesmos.

Bibliografia

Arendt, Hannah. The Human Condition. University of Chicago Press, 1958.

Bauman, Zygmunt. Liquid Modernity. Polity Press, 2000.

Beck, Ulrich. Risk Society: Towards a New Modernity. Sage Publications, 1992.

Giddens, Anthony. Modernity and Self‑Identity: Self and Society in the Late Modern Age. Stanford University Press, 1991.

Jameson, Fredric. Postmodernism, or, The Cultural Logic of Late Capitalism. Duke University Press, 1991.

Sennett, Richard. The Corrosion of Character: The Personal Consequences of Work in the New Capitalism. W. W. Norton & Company, 1998.

Taylor, Charles. Sources of the Self: The Making of the Modern Identity. Harvard University Press, 1989.

Žižek, Slavoj. Living in the End Times. Verso Books, 2010.

Monday, 15 June 2026

Why Not pensar o impossível?

 



Pensar o impossível sempre foi uma actividade suspeita. Não porque o impossível seja particularmente perigoso, mas porque tem a péssima mania de expor a mediocridade confortável do possível. O possível é ordeiro, previsível e domesticado; o impossível, pelo contrário, é insolente, inconveniente, e insiste em lembrar-nos que a realidade não passa de uma construção provisória, mantida por aqueles que têm medo de admitir que não sabem muito bem o que estão a fazer. A história humana é, aliás, uma sucessão de impossibilidades tornadas inevitáveis, desde a invenção da escrita até à criação de burocracias suficientemente complexas para impedir qualquer transformação significativa. Pensar o impossível é, portanto, um acto de higiene intelectual como uma espécie de desinfecção contra o conformismo institucionalizado.

O problema é que o impossível, quando pensado com seriedade, tem o hábito de revelar a fragilidade das estruturas que fingem governar o mundo. Basta observar como as sociedades contemporâneas se agarram a narrativas de estabilidade, como se a estabilidade não fosse apenas uma pausa entre duas crises. A própria ideia de progresso, tão celebrada nos discursos oficiais, funciona como um sedativo colectivo pois promete que tudo vai melhorar, desde que ninguém faça perguntas incómodas. Pensar o impossível é precisamente fazer essas perguntas, e isso perturba profundamente os guardiões do status quo, sempre prontos a defender a ordem existente com a convicção de quem nunca a analisou. É por isso que conceitos como utopia ou transformação estrutural são tratados como excentricidades académicas, quando na verdade são ferramentas essenciais para escapar ao labirinto mental do realismo resignado.

O realismo, esse grande inimigo do pensamento criativo, apresenta-se como uma virtude, quando na verdade é uma forma sofisticada de desistência. O realista profissional, figura omnipresente em governos, empresas e comentariado televisivo repete com ar grave que “não há alternativas”, como se a ausência de imaginação fosse uma lei natural. A sua missão é garantir que o mundo permaneça exactamente como está, mesmo que esteja a desmoronar-se. O realista não pensa o impossível porque teme que o impossível revele a sua irrelevância. Prefere, portanto, a segurança do previsível, mesmo que o previsível seja um desastre anunciado. É por isso que pensar o impossível é um acto subversivo porque desafia a autoridade dos que confundem prudência com paralisia.

Mas o impossível não é apenas uma provocação intelectual; é também um exercício de responsabilidade. Num tempo em que as crises se acumulam com a regularidade de um boletim meteorológico de natureza climática, económica, social, tecnológica insistir no possível é uma forma de negligência. O possível demonstrou repetidamente a sua incapacidade para resolver problemas que ajudou a criar. Continuar a confiar nele é como pedir a um pirómano que escreva o manual de combate a incêndios. Pensar o impossível, pelo contrário, abre espaço para imaginar soluções que não cabem nos modelos existentes, precisamente porque os modelos existentes foram desenhados para evitar qualquer mudança significativa. É um convite a reconfigurar o horizonte, não a ajustá-lo milimetricamente.

A dificuldade está em que o impossível exige coragem, não a coragem romântica dos heróis literários, mas a coragem prosaica de admitir que não sabemos tudo. Esta admissão é profundamente desconfortável para instituições que se legitimam através da aparência de omnisciente competência. Governos, universidades, empresas e organismos internacionais constroem a sua autoridade sobre a ficção de que dominam a complexidade do mundo. Pensar o impossível ameaça essa ficção, porque implica reconhecer que o conhecimento estabelecido é insuficiente. É por isso que tantas estruturas de poder preferem investir em gestão de risco do que em imaginação estratégica pois o risco pode ser calculado, a imaginação não.

No entanto, a história demonstra que as grandes transformações nunca surgiram de cálculos prudentes, mas de rupturas conceptuais. A abolição da escravatura, o sufrágio universal, a internet, a exploração espacial tudo isto foi considerado impossível antes de se tornar banal. O impossível é, portanto, o laboratório onde se testam as ideias que o presente ainda não consegue compreender. Recusar-se a pensar o impossível é condenar-se a repetir o passado com pequenas variações cosméticas. É transformar a política em administração, a ciência em manutenção, a cultura em reciclagem. É aceitar que o futuro seja apenas uma versão ligeiramente actualizada do presente, com mais sensores e algoritmos e menos ambição.

Pensar o impossível implica também desmontar a ilusão de que a realidade é neutra. A realidade é sempre o resultado de escolhas feitas por alguém, em algum momento, com interesses específicos. Quando nos dizem que algo é impossível, o que realmente querem dizer é que é impossível dentro das regras actuais, regras que foram desenhadas para beneficiar determinados actores. O impossível é, portanto, uma ameaça à arquitectura invisível do poder. É por isso que tantas vezes é ridicularizado, patologizado ou criminalizado. A imaginação é perigosa porque revela que o mundo poderia ser diferente, e essa possibilidade é intolerável para quem depende da sua imutabilidade.

O impossível, contudo, não é um delírio. É uma forma de lucidez. É perceber que a realidade não é um destino, mas um processo. É compreender que a estabilidade é uma ficção conveniente e que a mudança é a única constante. É reconhecer que o futuro não está escrito e que a sua escrita depende da nossa capacidade de imaginar alternativas. Pensar o impossível é, portanto, um acto de emancipação intelectual que nos liberta da tirania do presente e permite-nos conceber futuros que não sejam meras extensões das limitações actuais.

Claro que pensar o impossível tem custos. Exige tempo, energia e, sobretudo, disposição para enfrentar a incompreensão alheia. O pensador do impossível é frequentemente tratado como um excêntrico, um idealista, um perturbador da ordem pública. Mas esta reacção não deve ser interpretada como um sinal de erro; pelo contrário, é um indicador de que a imaginação está a tocar em zonas sensíveis do edifício social. A resistência ao impossível é, muitas vezes, a prova da sua necessidade. Quando uma sociedade reage com hostilidade a ideias que desafiam o seu funcionamento, está a confessar, involuntariamente, a sua fragilidade.

O impossível é também um antídoto contra o cinismo, essa doença crónica das sociedades saturadas de informação e esgotadas de sentido. O cínico acredita que tudo é previsível, que nada muda, que o poder é invencível e que a esperança é uma forma de ingenuidade. Pensar o impossível desmonta esta narrativa, porque demonstra que a história é feita de rupturas inesperadas. O impossível devolve-nos a capacidade de espanto, essa faculdade essencial para reconhecer que o mundo pode ser reinventado. E, num tempo em que a imaginação parece ter sido privatizada por empresas tecnológicas e departamentos de marketing, recuperar o impossível é um acto de resistência cultural.

Em última análise, pensar o impossível é uma forma de responsabilidade ética. Não porque o impossível seja moralmente superior, mas porque o possível demonstrou a sua insuficiência. Persistir no possível é aceitar a continuidade de problemas que exigem soluções radicais. É perpetuar desigualdades, crises ambientais, injustiças estruturais e modelos económicos que tratam o planeta como um recurso descartável. Pensar o impossível é, portanto, uma exigência ética que implica reconhecer que a imaginação não é um luxo, mas uma necessidade para enfrentar desafios que ultrapassam a lógica incremental do presente.

O impossível é, afinal, o território onde se desenham os futuros que ainda não existem. É o espaço conceptual onde se experimentam alternativas, onde se testam hipóteses, onde se desafiam limites. É o laboratório da humanidade que não requer financiamento, apenas coragem intelectual. E, num mundo que parece cada vez mais obcecado com a gestão do previsível, pensar o impossível é talvez o último gesto verdadeiramente revolucionário.

Bibliografia

·         Anderson, Benedict (2006). Imagined Communities: Reflections on the Origin and Spread of Nationalism. Verso.

·         Arendt, Hannah (1961). Between Past and Future. Penguin Books.

·         Bloch, Ernst (1986). The Principle of Hope. MIT Press.

·         Deleuze, Gilles & Guattari, Félix (1987). A Thousand Plateaus: Capitalism and Schizophrenia. University of Minnesota Press.

·         Feyerabend, Paul (1993). Against Method. Verso.

·         Fisher, Mark (2009). Capitalist Realism: Is There No Alternative? Zero Books.

·         Harari, Yuval Noah (2014). Sapiens: A Brief History of Humankind. Harper.

·         Kuhn, Thomas S. (1962). The Structure of Scientific Revolutions. University of Chicago Press.

·         Latour, Bruno (1991). We Have Never Been Modern. Harvard University Press.

·         Morin, Edgar (2005). Introduction à la pensée complexe. Seuil.

·         Ricoeur, Paul (1992). Oneself as Another. University of Chicago Press.

·         Sloterdijk, Peter (2013). You Must Change Your Life. Polity Press.

·         Žižek, Slavoj (2014). Trouble in Paradise: From the End of History to the End of Capitalism. Allen Lane.

      Referências:

·         Francesco Flavio & Giulia Maria Maria (2025). Frontiers | Current limitations in technology-based cognitive assessment for severe mental illnesses: a focus on feasibility, reliability, and ecological validity. www.frontiersin.org.

·         https://www.frontiersin.org/journals/behavioral-neuroscience/articles/10.3389/fnbeh.2025.1543005/full

·         Making sure you're not a bot!. publicera.kb.se. https://publicera.kb.se/ir/article/view/47590

·         Soung Min Kim (2021). Inductive or deductive? Research by maxillofacial surgeons - PMC. pmc.ncbi.nlm.nih.gov.

·         https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8249189/

·         Jennifer J Ware & Marcus R Munafò (2014). Significance chasing in research practice: Causes, consequences, and possible solutions - PMC. pmc.ncbi.nlm.nih.gov.

·         https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4962906/

·         pmejournal.org.

·         https://pmejournal.org/articles/10.1007/S40037-018-0414-0

·         Daniel Rodrigues Ramos (2018). A aprendizagem do pensar e a impossibilidade de ensinar filosofia. www.redalyc.org.

·         https://www.redalyc.org/journal/374/37457955012/html/

·         www.repository.cam.ac.uk.

·         https://www.repository.cam.ac.uk/items/b741595b-837b-4862-8cbb-151b7532b641

·         Solange Muglia WECHSLER & Tatiana de Cassia NAKANO (2018). Creativity and innovation: Skills for the 21st Century. www.redalyc.org.  https://www.redalyc.org/journal/3953/395357145002/html/

·         José Henrique De (2015). Brasil - EPISTEMOLOGIA CRÍTICA DO CONCRETO E MOMENTOS DA PESQUISA: UMA PROPOSIÇÃO PARA OS ESTUDOS ORGANIZACIONAIS EPISTEMOLOGIA CRÍTICA DO CONCRETO E MOMENTOS DA PESQUISA: UMA PROPOSIÇÃO PARA OS ESTUDOS ORGANIZACIONAIS. www.scielo.br.

·         https://www.scielo.br/j/ram/a/96bRwN4rJmwNrNZDwZXsw6q/

·         José de Queiroz & Thatiane Maria Almeida Silveira & Victor Cecílio Oliveira & Juliana Bezerra & Raquel Farias (2025). Brasil - Environmental Psychology in Brazil: bibliometric study of scientific production in open access Environmental Psychology in Brazil: bibliometric study of scientific production in open access. www.scielo.br.

·         https://www.scielo.br/j/estpsi/a/xXWSRNvFYrp9VJcfsS3s95H/?format=html&lang=en

·         Gerry S. Digo & Marco L. Espinosa (2025). Working Students and Academic Resilience: In Systematic Review of Challenges, Institutional Support and Pathways to Success in Free High Standard Education » UIJRT. uijrt.com.

·         https://uijrt.com/paper/working-students-academic-resilience-review-challenges-support-success

Wednesday, 10 June 2026

WHY NOT reinventar o futuro?



A pergunta parece saída de um cartaz motivacional barato pendurado numa sala de reuniões onde ninguém acredita verdadeiramente no que está escrito. “Why Not reinventar o futuro?” soa a slogan de consultora internacional que cobra milhões para dizer ao cliente aquilo que ele sabe mas não quer admitir de que o futuro, tal como está, não funciona. E, no entanto, por trás da banalidade publicitária, esconde‑se uma provocação séria, quase insolente, que desmonta a confortável preguiça intelectual das sociedades contemporâneas. Reinventar o futuro não é um capricho conceptual; é uma necessidade estrutural. E perguntar “Why Not?” é, no fundo, expor o ridículo de continuarmos a fingir que o futuro se constrói sozinho enquanto insistimos em repetir os mesmos erros com a convicção de quem acredita que desta vez, por milagre, o desastre será diferente.

A verdade inconveniente e portanto a mais útil é que o futuro não precisa de ser reinventado; precisa de ser resgatado. Foi sequestrado por uma combinação de tecnocratas entediados, políticos que confundem visão com PowerPoint e cidadãos que, exaustos, desistiram de imaginar alternativas. O futuro tornou‑se uma espécie de condomínio fechado onde só entra quem tem o passe VIP da inovação certificada, enquanto o resto da humanidade observa, do lado de fora, a promessa de um amanhã que nunca chega. Reinventá‑lo é, portanto, um acto de insubordinação intellectual de recusar a ideia de que o destino está pré‑embalado, pronto a consumir, como se fosse mais um produto numa prateleira de supermercado.

O problema é que falar de futuro tornou‑se um exercício de marketing. Tudo é “disruptivo”, “transformador”, “visionário”, desde que não mexa realmente em nada. As grandes narrativas do progresso foram substituídas por apresentações animadas com gráficos coloridos e frases ocas. Reinventar o futuro exige precisamente o contrário; desmontar a ilusão confortável de que basta acrescentar tecnologia para resolver problemas que são, na sua essência, humanos, sociais e políticos. A tecnologia é útil, claro, mas não substitui a coragem moral, a imaginação colectiva ou a capacidade de enfrentar contradições. Reinventar o futuro implica admitir que o futuro actual é, no mínimo, medíocre.

E por que razão é medíocre? Porque nos habituámos a confundir estabilidade com imobilismo. As sociedades contemporâneas vivem obcecadas com a gestão do risco, como se o objectivo máximo da existência fosse evitar qualquer perturbação. O futuro, assim, transforma‑se numa linha reta, previsível, sem sobressaltos, nem ousadia. Um futuro domesticado, higienizado, esterilizado. Reinventá‑lo exige recuperar o direito ao risco; não o risco irresponsável, mas o risco criativo, aquele que permite imaginar soluções fora do manual de instruções. O risco que incomoda, que perturba, que obriga a pensar.

A pergunta “Why Not?” é, por isso, uma afronta. Obriga a desmontar a lógica do “sempre foi assim”, essa frase que serve de anestesia colectiva. Why Not desafia a inércia institucional, a burocracia que se alimenta da própria lentidão, o conformismo que se disfarça de prudência. Why Not é a pergunta que expõe a nudez dos sistemas que se dizem modernos mas funcionam como museus de procedimentos obsoletos. É a pergunta que revela que muitas das nossas limitações não são reais, mas sim convenientes para quem beneficia da estagnação.

Reinventar o futuro implica também reconhecer que o presente está saturado. Saturado de informação irrelevante, de debates circulares, de indignações instantâneas que duram o tempo de um scroll. Vivemos numa sociedade que confunde velocidade com direcção. Corremos muito, mas raramente sabemos para onde. Reinventar o futuro exige desacelerar o suficiente para pensar, mas acelerar o suficiente para agir. Exige uma combinação improvável de lucidez e audácia, duas qualidades que raramente coexistem nas estruturas de poder.

E aqui surge a ironia maior a de que todos falam de futuro, mas poucos o querem realmente reinventar. Reinventar implica perder privilégios, abandonar certezas, enfrentar resistências. É muito mais confortável manter o futuro como uma abstracção simpática, uma promessa vaga que se pode adiar indefinidamente. Reinventá‑lo exige trabalho, conflito, escolhas difíceis. Exige admitir que o futuro não é um destino, mas uma construção. E que, como qualquer construção, pode ruir se for mal planeado.

A reinvenção do futuro começa por desmontar a narrativa de que não há alternativas. Essa frase repetida como mantra por quem teme mudanças é a maior fraude intelectual do nosso tempo. Há sempre alternativas; o que falta é vontade política, imaginação social e coragem individual. Reinventar o futuro é, portanto, um exercício de libertação; libertar o pensamento das amarras do possível, libertar a acção das amarras do medo, libertar a sociedade das amarras da resignação.

Mas reinventar o futuro não significa destruir tudo o que existe. Significa reavaliar, reconfigurar, reimaginar. Significa olhar para os problemas com a honestidade brutal que raramente permitimos. Significa admitir que muitos dos nossos sistemas económicos, educativos, sociais foram desenhados para um mundo que não existe. Continuar a utilizá‑los é como tentar navegar o oceano com um mapa medieval romântico, talvez, mas completamente inútil.

A reinvenção exige também uma mudança de escala. O futuro não pode ser pensado apenas a partir dos centros de poder tradicionais. Precisa de incluir vozes periféricas, experiências marginalizadas, perspectivas que foram sistematicamente ignoradas. O futuro reinventado é necessariamente plural, porque a homogeneidade é inimiga da inovação. Sociedades que se fecham sobre si próprias acabam por repetir os mesmos erros com uma convicção quase religiosa. Reinventar o futuro implica abrir espaço para o inesperado, para o incómodo, para o contraditório.

E, claro, reinventar o futuro exige humor. Não o humor superficial das redes sociais, mas o humor crítico, aquele que desmonta pretensões, que expõe absurdos, que revela o ridículo das certezas absolutas. O humor é uma ferramenta política poderosa porque permite dizer verdades que, de outra forma, seriam insuportáveis. Um futuro reinventado precisa de leveza, não para fugir aos problemas, mas para enfrentá‑los com lucidez. A seriedade excessiva é inimiga da criatividade; o riso, pelo contrário, abre espaço para pensar de forma diferente.

A pergunta “Why Not?” é, portanto, um convite à insubmissão. Um convite a recusar a narrativa de que o futuro é inevitável. Um convite a assumir responsabilidade. Um convite a imaginar o que ainda não existe. Um convite a agir antes que seja tarde demais. Reinventar o futuro não é um luxo intelectual; é uma urgência civilizacional.

E, no entanto, a maior resistência à reinvenção não vem das instituições, mas das pessoas. O medo do desconhecido é uma força poderosa. Preferimos um futuro mau mas familiar a um futuro incerto mas potencialmente melhor. Reinventar o futuro exige coragem emocional, não apenas racional. Exige a capacidade de abandonar identidades rígidas, de aceitar que a mudança é desconfortável, de reconhecer que o crescimento implica perda. Exige maturidade colectiva, algo que as sociedades contemporâneas, habituadas ao imediatismo, raramente demonstram.

Mas a alternativa é pior pois um futuro que não é reinventado é um futuro que se repete. E a repetição, em sociedades complexas, conduz ao colapso. Reinventar o futuro é, portanto, um acto de sobrevivência. Não no sentido dramático de filmes distópicos, mas no sentido real de garantir que as próximas gerações não herdam um mundo esgotado, exausto, incapaz de responder aos desafios que se acumulam.

A pergunta “Why Not?” é, no fundo, uma pergunta moral. Por que não reinventar o futuro quando sabemos que o presente é insuficiente? Por que não ousar quando a alternativa é a estagnação? Por que não imaginar quando a imaginação é a única ferramenta que nos resta? A resposta mais honesta é simples; porque dá trabalho. Mas tudo o que vale a pena dá trabalho. E o futuro, se é para ser vivido com dignidade, merece esse esforço.

Reinventar o futuro não é um exercício de futurologia; é um exercício de responsabilidade. É reconhecer que o futuro não é um lugar distante, mas uma consequência directa das escolhas que fazemos hoje. É admitir que a passividade é uma forma de cumplicidade. É compreender que a esperança não é um sentimento, mas uma prática.

Why Not reinventar o futuro? Porque não há alternativa sensata. Porque continuar como estamos é uma forma elegante de suicídio colectivo. Porque a humanidade, apesar de todos os seus defeitos, ainda é capaz de grandeza. Porque o futuro, quando reinventado, deixa de ser uma ameaça e torna‑se uma promessa.

E, sobretudo, porque a pergunta certa não é “Why Not reinventar o futuro?”, mas sim, por que raio ainda estamos a adiar aquilo que sabemos que precisa de ser feito?

Bibliografia

Arendt, H. (1958). The Human Condition. University of Chicago Press.

Bauman, Z. (2000). Liquid Modernity. Polity Press.

Beck, U. (1992). Risk Society: Towards a New Modernity. Sage Publications.

Harari, Y. N. (2018). 21 Lessons for the 21st Century. Jonathan Cape.

Latour, B. (2018). Down to Earth: Politics in the New Climatic Regime. Polity Press.

Morozov, E. (2013). To Save Everything, Click Here: The Folly of Technological Solutionism. PublicAffairs.

Sennett, R. (2006). The Culture of the New Capitalism. Yale University Press.

Taleb, N. N. (2012). Antifragile: Things That Gain from Disorder. Random House.

Žižek, S. (2010). Living in the End Times. Verso Books.

Saturday, 23 May 2026

O inconsciente governa o consciente?

 


 O inconsciente governa o consciente apenas na medida em que a sombra governa a luz, não como tirano absoluto, mas como corrente subterrânea que molda o curso visível do rio. A resposta curta seria sim, governa, mas essa afirmação, deixada assim, nua, perderia a espessura do que realmente está em jogo. O inconsciente não é um soberano oculto sentado num trono de trevas; é antes um tecido profundo onde se entrelaçam memórias antigas, impulsos que nunca chegaram à superfície, desejos que não ousaram nomear-se, e também uma sabedoria arcaica que antecede qualquer gesto deliberado. O consciente, por sua vez, é a face iluminada, a parte que acredita escolher, decidir, ordenar, mas que tantas vezes se limita a justificar aquilo que já foi decidido noutro lugar.

A vida psíquica, vista de perto, não é uma hierarquia rígida, mas uma dança. O inconsciente move-se primeiro, silencioso, e o consciente segue, convencido de que lidera. Freud descreveu este mecanismo com a precisão de quem observa um animal selvagem a respirar no escuro em que a consciência é apenas a ponta do iceberg, a parte que emerge, enquanto a massa submersa, o inconsciente, determina a deriva. Jung, por sua vez, ampliou essa visão, mostrando que o inconsciente não é apenas depósito de conteúdos reprimidos, mas também fonte de imagens, arquétipos e intuições que orientam o indivíduo para além do que ele sabe sobre si.

Se o inconsciente governa o consciente, fá-lo através de gestos subtis como um desvio do olhar, uma palavra que escapa, um silêncio que pesa mais do que qualquer frase. Governa quando escolhemos alguém e não sabemos explicar porquê, quando tememos algo que não nos ameaça, quando repetimos padrões que jurámos abandonar. Governa quando sonhamos, mas também quando acordamos e seguimos o sonho sem perceber. Governa quando o corpo reage antes da mente, quando o coração acelera sem motivo aparente, quando a memória inventa para proteger, quando a razão se dobra para justificar.

No entanto, seria injusto imaginar o consciente como marioneta. Ele é o espaço onde a experiência se torna narrativa, onde o impulso se transforma em decisão, onde o caos encontra forma. O consciente é o lugar da palavra, e a palavra é sempre uma tentativa de domesticar o indomável. Mas mesmo essa domesticação é parcial pois por detrás de cada frase há um eco que não controlamos, uma intenção que não confessamos e uma emoção que se infiltra.

A psicologia contemporânea, apoiada em estudos de neurociência, reforça esta ideia de grande parte das nossas decisões ocorre antes de termos consciência delas. O cérebro prepara a acção milissegundos antes de acreditarmos que a escolhemos. A consciência chega tarde, como narrador que tenta acompanhar uma história já em movimento. Mas essa chegada tardia não a torna inútil; torna-a humana. A consciência é o palco onde damos sentido ao que já começou noutro lugar.

O inconsciente governa, sim, mas governa como o vento governa o mar pois não o controla totalmente, mas imprime-lhe direcção, textura e  ritmo. O consciente, por sua vez, é o marinheiro que ajusta as velas, que tenta interpretar a força invisível, que aprende a navegar com aquilo que não domina. A relação entre ambos não é de submissão, mas de interdependência. O inconsciente oferece profundidade; o consciente oferece forma. O inconsciente é o subterrâneo; o consciente é a superfície onde caminhamos.

Há momentos, porém, em que o inconsciente assume o comando de forma mais evidente como nos lapsos, sonhos, impulsos súbitos e nas paixões que irrompem sem aviso. Nesses instantes, percebemos que há em nós uma força que não consultámos, uma vontade que não assinámos. Mas também há momentos em que o consciente, treinado pela reflexão, análise e experiência, consegue iluminar parte desse território oculto. A psicanálise, meditação e introspecção profunda são tentativas de criar pontes entre esses dois reinos.

O inconsciente governa, mas não é um tirano; é um guardião. Guarda aquilo que seria demasiado pesado para a consciência carregar, guarda aquilo que ainda não estamos prontos para ver, guarda também a criatividade que só floresce quando a vigilância consciente adormece. Muitos dos nossos actos mais belos como um poema que surge de repente, uma solução inesperada, um gesto de compaixão nascem desse lugar onde não mandamos.

O consciente, por sua vez, governa quando aprende a escutar. Quando deixa de tentar controlar tudo e aceita que a mente é mais vasta do que a sua própria claridade. Quando reconhece que a razão não é inimiga da sombra, mas sua intérprete. Quando compreende que a liberdade não está em dominar o inconsciente, mas em dialogar com ele.

A pergunta “o inconsciente governa o consciente?” é, no fundo, uma pergunta sobre quem somos. Somos aquilo que sabemos ou aquilo que sentimos sem saber? Somos a superfície ou a profundidade? A resposta, talvez, esteja na própria condição humana: somos ambos. Somos o visível e o invisível, o dito e o não dito, o que lembramos e o que esquecemos, o que escolhemos e o que nos escolhe.

O inconsciente governa, mas o consciente responde. O inconsciente inicia, mas o consciente continua. O inconsciente empurra, mas o consciente orienta. A vida psíquica é esse diálogo permanente, essa tensão fecunda entre o que emerge e o que se esconde. E é dessa tensão que nasce a singularidade de cada pessoa, a sua história, a sua fragilidade e a sua força.

No fim, talvez a pergunta não deva ser se o inconsciente governa o consciente, mas como podemos viver sabendo que uma parte de nós permanece sempre oculta. A resposta é simples e difícil: com humildade. Com a consciência de que não controlamos tudo, mas podemos compreender mais. Com a coragem de olhar para dentro sem medo do que encontraremos. Com a aceitação de que a mente é um território vasto, onde a luz e a sombra não são inimigas, mas companheiras.

Bibliografia: Freud, Sigmund. A Interpretação dos Sonhos. Lisboa: Relógio d’Água, 2017.

Jung, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente. Lisboa: Presença, 2015.

Damasio, António. O Erro de Descartes. Lisboa: Temas e Debates, 2010.

Kahneman, Daniel. Thinking, Fast and Slow. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2011.

Solms, Mark. The Hidden Spring: A Journey to the Source of Consciousness. London: Profile Books, 2021.

Referências:

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A Força Discreta de Recomeçar

Há quem imagine o recomeço como um acto heróico, digno de trombetas, fanfarras e proclamações públicas. Uma espécie de renascimento teatral ...