Começar de novo é uma
daquelas ideias que a humanidade adora proclamar com ar de epifania, como se
tivesse descoberto a pólvora emocional. A frase surge sempre com a mesma
solenidade: um suspiro profundo, um olhar para o horizonte, uma mão pousada no
peito, e a convicção quase religiosa de que, desta vez, tudo será diferente. É
o mantra universal dos arrependidos, dos cansados, dos que se convenceram de
que a vida é uma espécie de tabuleiro onde se pode carregar no botão reset
sempre que a partida corre mal. Infelizmente, a realidade tem o péssimo hábito
de não alinhar com estes entusiasmos. Mas a pergunta persiste, teimosa,
provocadora, quase insolente: Why Not começar de novo?
A resposta mais simples seria; porque não funciona. Mas isso seria
demasiado curto, honesto e eficaz e, portanto, incompatível com o espírito
humano, que prefere sempre a versão mais longa, dramática e ornamentada das coisas. Começar
de novo exige uma coreografia complexa de ilusões, racionalizações e pequenas
mentiras piedosas que contamos a nós próprios para justificar o facto de
estarmos a repetir, com ligeiras variações, exactamente o mesmo que fizemos
antes. A humanidade é especialista em reciclar erros com uma criatividade digna
de prémio.
O fascínio pelo
recomeço tem raízes profundas. É a fantasia de que o passado pode ser arquivado
como um ficheiro corrompido, que as consequências podem ser dissolvidas como
açúcar na água, que a identidade é uma massa moldável que se adapta ao sabor do
momento. É a crença ingénua de que basta mudar de cenário para mudar de enredo.
Muda-se de cidade, de emprego, de parceiro, de dieta, de
filosofia de vida, de corte de cabelo e proclama-se, com convicção teatral, que
agora sim, tudo será diferente. A humanidade adora
confundir movimento com transformação, como se a deslocação física tivesse
poderes metafísicos.
Mas a verdade é que
começar de novo raramente significa começar do zero. Significa, quase sempre,
começar do mesmo ponto, mas com uma narrativa mais elaborada. É como pintar uma parede rachada com uma cor mais alegre
que durante alguns dias parece que funciona, até que a fissura reaparece, imperturbável,
lembrando-nos que a tinta não substitui o cimento. O
recomeço é, muitas vezes, apenas cosmética existencial.
Ainda assim, a pergunta
insiste: Why Not começar de novo? Talvez porque o recomeço é uma operação de
alto risco. Implica admitir que
o que veio antes falhou e a humanidade tem uma relação complicada com o
fracasso. Preferimos reinterpretá-lo, redesenhá-lo,
atribuir-lhe causas externas, transformá-lo em oportunidade, em aprendizagem,
em qualquer coisa que não nos obrigue a reconhecer que, afinal, não somos tão
excepcionais como imaginávamos. Começar de novo exige uma honestidade brutal
que raramente estamos dispostos a praticar.
Além disso, o recomeço tem uma componente profundamente irónica pois para
começar de novo, é preciso saber onde se está. E a maioria das
pessoas não faz ideia. Vivem num
estado permanente de distracção, navegando entre notificações, obrigações e
pequenas urgências que consomem toda a energia mental disponível. O
recomeço exige lucidez, e a lucidez é um recurso escasso. É mais fácil
proclamar um novo começo do que compreender o que precisa realmente de ser
recomeçado.
Mas há outra razão, mais subtil, para desconfiar do recomeço que pressupõe
que existe um ponto ideal onde deveríamos ter estado e do qual nos desviámos. É
a nostalgia do futuro que nunca aconteceu. A ideia de que existe uma versão
melhor de nós mesmos, algures num universo paralelo, à espera que façamos
finalmente as escolhas certas. É uma fantasia reconfortante, mas profundamente
infantil. A vida não é um labirinto com uma saída correcta; é um campo aberto
onde cada passo cria o caminho. Começar de novo é, muitas vezes, a tentativa
desesperada de regressar a uma rota imaginária.
E, no entanto, apesar
de todas estas contradições, o recomeço continua a seduzir. Talvez porque
oferece uma narrativa simples para problemas complexos. É mais fácil dizer “vou
começar de novo” do que enfrentar a intricada teia de decisões, hábitos, medos
e condicionamentos que moldam a nossa existência. O recomeço é uma promessa de
simplicidade num mundo que insiste em ser complicado.
Mas há uma alternativa mais interessante de não começar de novo, mas
continuar de outra maneira. Em vez de apagar o passado,
integrá-lo. Em vez de rejeitar o que fomos, compreender porque fomos assim. Em
vez de procurar uma nova versão de nós mesmos, trabalhar para que a actual seja
menos desastrosa. É menos
glamoroso, cinematográfico e digno de um post inspiracional, mas é
infinitamente mais realista.
A obsessão pelo
recomeço também revela uma certa arrogância. A ideia de que podemos
reinventar-nos completamente ignora o facto de que somos, em grande medida,
produtos de contextos, relações, circunstâncias e limitações que não
controlamos. Começar de novo pressupõe uma liberdade que raramente existe. É uma fantasia de omnipotência disfarçada de humildade. E
há ainda o problema da memória. A humanidade gosta de
acreditar que pode esquecer selectivamente, como se a mente tivesse um botão de
delete. Mas a memória é teimosa, persistente, e tem uma capacidade
extraordinária de se infiltrar nos novos começos, sabotando-os com a subtileza
de um conspirador experiente. Começar de novo é tentar construir uma casa nova
com tijolos velhos.
Então, Why Not começar
de novo? Porque, na maioria das vezes, não começamos. Apenas mudamos o cenário
e repetimos o guião. O recomeço é uma ilusão reconfortante, mas raramente é uma
solução. A verdadeira transformação exige continuidade, não ruptura. Exige
trabalho, não entusiasmo. Exige
disciplina, não inspiração. Mas, claro, esta visão é demasiado pragmática para
o gosto geral. A humanidade prefere sempre a versão
romântica das coisas. Prefere acreditar que cada novo começo é uma oportunidade
para renascer, como uma fénix emocional que emerge das cinzas dos seus próprios
erros. É uma metáfora bonita, mas profundamente enganadora. A fénix renasce
porque morre; nós, felizmente, não temos esse privilégio.
O recomeço também tem
uma dimensão política, social e cultural. As sociedades adoram proclamar novos começos como novas
eras, novos ciclos, novos governos, novos pactos, novas visões. É
a forma mais elegante de evitar assumir responsabilidades pelo que correu mal.
Quando não se sabe como resolver um problema, declara-se um novo começo. É uma estratégia tão antiga quanto eficaz. Mas talvez a
pergunta Why Not começar de novo? mereça uma resposta menos cínica. Talvez
o recomeço seja, apesar de tudo, uma forma de esperança. Uma esperança ingénua,
imperfeita, mas necessária. A humanidade precisa de acreditar que pode mudar,
mesmo quando não muda. Precisa de acreditar que pode melhorar, mesmo quando
repete os mesmos erros. Precisa de acreditar que o futuro pode ser diferente,
mesmo quando insiste em reproduzir o passado.
O recomeço é, no fundo,
uma ficção útil. Uma ficção que nos permite continuar, mesmo quando tudo parece
indicar que deveríamos parar. Uma ficção que nos dá coragem para tentar outra
vez, mesmo sabendo que o resultado pode ser o mesmo. Uma ficção que nos permite sobreviver à consciência das
nossas limitações. Por isso, talvez a resposta seja: Why Not começar de novo? Porque,
apesar de tudo, precisamos dessa ilusão. Precisamos dessa narrativa. Precisamos
dessa promessa. Não porque funcione, mas porque nos mantém em movimento. E, às
vezes, mover-se é tudo o que podemos fazer.
No final, começar de
novo é uma espécie de pacto silencioso entre o que somos e o que gostaríamos de
ser. Um pacto imperfeito, frágil, mas profundamente humano. E talvez seja isso
que importa. Não a eficácia do
recomeço, mas a sua capacidade de nos lembrar que, apesar de tudo, ainda
acreditamos em alguma coisa. Seja como for, a pergunta permanece, insolente,
provocadora, quase poética: Why Not começar de novo? Talvez
porque não podemos. Talvez porque não sabemos. Talvez porque não precisamos. Ou talvez porque, no fundo, estamos sempre a começar não
de novo, mas de nós mesmos.
Bibliografia
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